A CIA financiou visão remota por 20 anos. O relatório que encerrou o programa tem duas conclusões opostas
Publicado em 24 de agosto de 2026
Durante mais de vinte anos, o governo dos Estados Unidos pagou pessoas pra ficarem sentadas numa sala tentando descrever lugares que nunca tinham visto, a milhares de quilômetros de distância, usando só a mente.
Isso não é teoria de conspiração. É orçamento público, contrato assinado, e milhares de páginas hoje disponíveis no acervo da própria CIA.
O programa acabou em 1995. E o relatório que decretou o fim dele traz duas assinaturas que discordam entre si.
Essa é uma das histórias mais mal contadas que existem, porque cada lado repete só a metade que lhe convém.
Como começou
Início dos anos 1970. Em plena Guerra Fria, chega à inteligência americana a informação de que os soviéticos estariam investindo em pesquisa de fenômenos psíquicos aplicados a espionagem.
A lógica que se seguiu foi menos mística do que parece: se eles estão gastando com isso e funcionar, ficamos pra trás. Se não funcionar, gastamos pouco pra descobrir.
A pesquisa foi parar no Stanford Research Institute, na Califórnia, com dois físicos, Harold Puthoff e Russell Targ. E o primeiro sujeito importante foi Ingo Swann, um artista plástico de Nova York que dizia conseguir descrever lugares distantes.
Foi Swann quem ajudou a criar o protocolo que ficou conhecido como visão remota controlada. A ideia central era tirar a coisa do terreno da adivinhação e colocar num procedimento: a pessoa não sabia o alvo, recebia apenas um código, e o que ela desenhava e descrevia era comparado depois com o lugar real por avaliadores que também não sabiam a resposta.
Esse cuidado com o método é justamente o que torna o caso interessante. Não era sessão de vidência. Era protocolo, com controle e com registro.
Vinte anos, vários nomes, um guarda-chuva
O programa mudou de nome muitas vezes ao longo das décadas, passando por diferentes agências, incluindo a inteligência do Exército e a Agência de Inteligência de Defesa. Stargate é o nome do guarda-chuva final, e ficou como o nome pelo qual todo mundo conhece a história inteira.
Foram cerca de vinte milhões de dólares ao longo de duas décadas. Em orçamento de inteligência americana, isso é troco. Mas é dinheiro público gasto num programa que a maioria das pessoas jura ser lenda urbana.
Em 1995 a CIA contratou uma avaliação independente, feita pelo American Institutes for Research, pra decidir se aquilo continuava ou não.
O relatório com duas conclusões opostas
Aqui está o coração da história, e a parte que quase nunca aparece inteira.
A avaliação foi feita por dois especialistas escolhidos justamente por pensarem diferente.
Jessica Utts, professora de estatística, analisou os dados e concluiu que o efeito era estatisticamente real. A frase dela é direta e vale ser lida com atenção: usando os padrões aplicados a qualquer outra área da ciência, o funcionamento psíquico estaria bem estabelecido, e os resultados estatísticos dos estudos examinados estariam muito além do esperado por acaso.
Ray Hyman, psicólogo e crítico de longa data da parapsicologia, olhou os mesmos dados e discordou. O argumento dele não foi que o efeito era zero, e sim que falhas de método tornavam os resultados não confiáveis: possibilidade de vazamento de informação, avaliadores que podiam ser influenciados, e a ausência de um mecanismo que explicasse como aquilo aconteceria.
Duas pessoas competentes, os mesmos números, conclusões opostas sobre o que eles significam.
Onde os dois concordaram
E é este ponto que decidiu tudo.
Utts e Hyman concordaram que, mesmo que a visão remota fosse real, a informação produzida era vaga e inconsistente demais pra ter uso operacional. Descrições genéricas, acertos misturados com erros, e nenhuma forma de saber qual parte era qual antes de conferir.
Pra uma agência de inteligência, isso encerra a discussão. Não adianta uma fonte estar certa às vezes se você não consegue saber quando.
A CIA acolheu a leitura de Hyman e o programa foi encerrado. Os documentos foram desclassificados e hoje qualquer pessoa consegue ler.
As duas versões erradas que circulam
A versão mística: "a CIA provou que a visão remota funciona e depois escondeu". Errado em duas pontas. Não provou, houve divergência explícita entre os avaliadores, e não escondeu, os papéis foram publicados justamente ao encerrar.
A versão cética: "foi tudo bobagem que nunca deu resultado nenhum". Também incompleto. O programa existiu por duas décadas com apoio de agências sérias, e a estatística contratada pra avaliar concluiu que havia efeito nos dados. Ignorar isso é escolher metade do relatório, exatamente o pecado do outro lado.
A leitura honesta é mais desconfortável que as duas: havia sinal nos números, e não havia utilidade prática nem explicação. Foi isso que fechou o programa. Não foi vergonha, foi inutilidade.
O que fazer com uma história assim
Existe uma diferença que quase nunca é feita e que muda tudo neste assunto.
Uma coisa é perguntar o efeito existe? Outra bem diferente é perguntar dá pra usar isso pra alguma coisa?
O relatório de 1995 respondeu à segunda com clareza: não dá. E deixou a primeira em aberto, com dois especialistas discordando por escrito.
Trinta anos depois, a primeira pergunta continua no mesmo lugar. Não apareceu mecanismo. Não apareceu replicação robusta o suficiente pra virar consenso. E não apareceu, também, uma demonstração de que tudo aquilo era erro de medição.
Ficou um empate desconfortável, que é o estado real de muito mais assunto do que a gente gosta de admitir.
Por que isso importa mesmo pra quem não liga pra espionagem
Porque é um caso raro em que dá pra ver o método funcionando no assunto mais escorregadio possível.
Ninguém precisou acreditar ou descrer pra participar. Montaram protocolo, cegaram os avaliadores, guardaram registro, e no fim contrataram gente de opinião oposta pra revisar. O resultado não agradou nenhum dos dois lados, e foi publicado assim mesmo.
É o oposto do que costuma acontecer com esse tipo de tema, onde quase tudo que circula é relato sem controle nenhum, contado por quem já sabia a conclusão antes de começar.
Se você se interessa por percepção, intuição ou qualquer coisa que a explicação corrente não dá conta, o Stargate é um bom espelho. Ele mostra que dá pra levar a pergunta a sério sem abrir mão do cuidado, e que a resposta honesta às vezes é um empate, e não uma bandeira.
Os documentos estão públicos. Dá pra ler os dois lados e formar sua própria opinião, que é bem mais do que a maioria dos assuntos deste tipo oferece.
De onde veio o que está aqui
Levantamento feito em 23 de agosto de 2026, 22:41. Ciência muda, e a data existe pra você saber de quando é o que está lendo.
- Federation of American Scientists. STAR GATE (Controlled Remote Viewing): histórico do programa. FAS Intelligence Resource Program. Consultar
- CIA. Acervo desclassificado do programa (CIA FOIA Reading Room). Central Intelligence Agency. Consultar
- American Institutes for Research. Avaliação final do programa STARGATE, transcrição integral (28/11/1995). The Classified Record, 1995. Consultar
- May, E.; Marwaha, S. (orgs.). The Star Gate Archives: Reports of the United States Government Sponsored Psi Program, 1972-1995. McFarland. Consultar
Se o que você acabou de ler mexeu com alguma coisa em você, talvez o próximo passo não seja ler mais notícia. É se conhecer melhor.
Existe um sistema de autoconhecimento muito difundido nos Estados Unidos e ainda pouco falado no Brasil, o Human Design. Ele mostra como a sua energia funciona de verdade, onde ela costuma vazar, e como você pode se reprogramar sem lutar contra a própria natureza.
E se você já desconfiou que o seu jeito de funcionar não é só cansaço nem falta de disciplina, existe também o Mapa Neurodivergente: uma triagem acolhedora, feita pra quem quer entender antes de rotular.